Qual intervenção tem melhor resultado no tratamento dos pacientes?
Há uma intensa polêmica sobre o que funciona melhor. São listadas ivermectina (abordada nesta coluna na semana passada), hidroxicloroquina, zinco, vitaminas, cortisona, e por aí vai, seguindo uma discussão contaminada por paixões e vieses políticos.
A avaliação atenta dos números deixa claro que o melhor impacto foi conseguido com duas intervenções combinadas: um sistema de saúde capaz de absorver a demanda de pacientes e UTIs de qualidade.
A absorção da demanda pelo sistema de saúde mostrou-se fator determinante em várias partes do mundo. Apresentaram melhores resultados aquelas regiões que se organizaram, ampliaram os atendimentos e a disponibilidade de leitos, bem como realizaram mais testes. Exemplo de sucesso, a Alemanha contou com um serviço de saúde amplo e acessível além de maior quantidade de leitos de UTI disponíveis por habitante. Como consequência, o país experimentou taxa de mortes muito baixas em comparação a outros países europeus.

No Brasil, as taxas de mortalidade são bastante variáveis e mostram relação direta com a capacidade do sistema de saúde de cada região em conseguir absorver os pacientes que necessitam de internação, especialmente nos casos mais graves.
Mas o número que mais chama a atenção é a taxa de mortes em UTIs. Vemos aqui uma enorme disparidade. Uma revisão recente comparou as frequências de morte em pacientes admitidos em UTIs em diversos locais ao redor do mundo. A variação é assustadora: enquanto a taxa mais baixa foi de 8% de mortes, a mais alta, e pior, chegou a mais de 80%.
É preciso, ainda, aguardar a consolidação dos dados das mortes nas UTIs brasileiras. No entanto, quem acompanha de perto esses casos nota uma disparidade semelhante no país: há uma clara diferença no desempenho das UTIs e suas taxas de mortalidade, em diferentes locais. Esta variação lembra bastante a revisão feita em outros países. No início desta semana, o repórter Fernando Canzian revisitou o número de mortes proporcionais aos casos, nas diferentes regiões do Brasil, confirmando a grande variação observada.
Embora ainda intuitivo, estamos aos poucos constatando que em locais onde há maior investimento em infraestrutura, com bons equipamentos, bons profissionais de saúde e suporte, bem treinados e em número adequado, bem como acesso a medicamentos e disponibilidade de leitos, as taxas de morte são, de fato, muito menores.
Identificar precocemente o paciente que precisa de oxigênio, acompanhar sua capacidade de oxigenação durante a internação e levá-lo para a UTI assim que necessário, para que sejam aplicadas técnicas mais avançadas de ventilação, faz, sim, uma grande diferença.
Devemos continuar a busca por um remédio novo, o “melhor remédio”, que atue mais eficazmente contra o vírus? É claro que sim.
Podemos mudar o destino daqueles que desenvolvem a doença em sua forma mais grave com o uso de medicamentos, como a cortisona? Em parte, sim.
Entretanto, a forma mais eficaz de reduzir as mortes por Covid-19 não vem dos remédios. Um sistema de saúde de qualidade e com UTIs bem preparadas é o que, principalmente, reduz a mortalidade decorrente do novo coronavírus.
É preciso que esses fatos sejam melhor considerados para a necessária reavaliação da maneira como tratamos o sistema de saúde do Brasil, quer seja o Sistema Único de Saúde, quer seja a assistência suplementar. Priorizar o investimento em infraestrutura e em pessoal é imprescindível, pois contar com uma boa rede de leitos de UTI é questão estratégica e deve ser tratada com carinho e seriedade. Não estaremos preparados para a próxima pandemia se não corrigirmos as distorções regionais de acesso e qualidade em nosso sistema de saúde.Esper Kallás
Médico infectologista, é professor titular do departamento de moléstias infecciosas e parasitárias da Faculdade de Medicina da USP e pesquisador na mesma universidade.
Fonte:www.folha.com.br